Sinopse do livro de Pétalas de Memórias

Pétalas de Memórias, por Ana Meire Viana

LIVRO - MEMÓRIAS DA FAMÍLIA

De 1914 até os dias atuais

Coletânea de Memórias da Família Pereira, Viana dos Santos

Entre lembranças e afetos, esta coletânea é um tributo à força e à ternura que moldaram a história da família Pereira, Viana dos Santos.Das raízes fincadas na Fazenda Estanque, em Catu, Bahia, às novas páginasescritas em Salvador, cada memória aqui reunida é um elo que une o ontem e ohoje, o vivido e o sonhado.

Relembrar é também agradecer. Ane, Leila, Carol, Daniela,Tia Diva, Taninha, Nadinho, Xininha, Nanica, Thiago, Marquito e Meire naconstrução desta primeira parte da coletânea — guardiões de histórias quecontinuam a pulsar no coração da família.

Cada página é um gesto de cuidado, um convite à celebraçãodas origens e à preservação daquilo que nos torna quem somos: a memóriacompartilhada, o afeto que permanece e o orgulho de pertencer.

Ana Meire Viana dosSantos – Organizadora

Prefácio

A ideia para este livro de memórias nasceu em uma tardecomum, mas memorável, em Jauá¹,  distritode Camaçari, Bahia. Era um dia ensolarado, e eu, Ana Meire, estava com meusobrinho João Guilherme, minha sobrinha-neta Maria Elis e meu neto AntônioFelipe, como em muitas tardes de diversão com as crianças, estávamos brincandono balanço em frente à minha casa quando, de repente, Maria, com apenas cincoanos na época, começou a me fazer várias perguntas. Ela queria saber sobre osnossos antepassados: como eram os meus pais, meus avós, e como foi a minhainfância. Sabe como é, quando as crianças começam a perguntar, as perguntasparecem não ter fim!

Maria, com sua curiosidade natural, despertou em mim uma sériede memórias, muitas delas há tempos esquecidas. Suas perguntas me lembraram decomo, ao longo dos anos, tantas histórias da nossa família foram sendo deixadaspara trás, especialmente com a perda de alguns dos nossos entes queridos. E foiali, naquela tarde, que percebi a importância de registrar a nossa história.Afinal, com o passar do tempo, memórias se apagam, e, como filhos, netos ebisnetos de afro-ameríndios, nossa tradição sempre foi contada pela oralidade,uma prática preciosa, mas que pode ser facilmente perdida.

Essa inquietação da pequena Maria, que veio antes da trágicapandemia de 2020, me levou a refletir sobre o quanto da nossa história já haviase perdido. Com a partida de muitos de nossos familiares, percebi que restavampoucos para contar essas histórias ricas e diversas. Sendo historiadora,entendi que a minha profissão poderia me ajudar a cumprir essa missão. Assim,decidi que não poderia deixar essas histórias se perderem. Desde então, venhome dedicando a entrevistar parentes, organizar encontros familiares ondepudéssemos simplesmente sentar e ouvir uns aos outros, registrar relatos ecompartilhar memórias. Cada entrevista, cada conversa, trazia à tona umainfinidade de histórias – algumas profundamente reais e outras com aquele toquede ficção que só a passagem do tempo pode proporcionar.

Nosso ponto de partida é a Fazenda Estanque, na Cidade deCatu, Bahia, onde a família Pereira e Viana dos Santos fincou suas raízes. Aolongo das décadas, essa família se espalhou pelo mundo, continuou a produzirhistórias que merecem ser lembradas. Algumas dessas histórias já estavam seperdendo, mas agora, com a coletânea do resgate das memórias de pessoas danossa família, espero garantir que elas permaneçam vivas para as futurasgerações.

Este é apenas o começo de um longo processo de preservaçãoda nossa história familiar. Aqui, cada membro da família, com as suaslembranças e contribuições, enriquece esta narrativa que é nossa, e que mereceser contada com todo o carinho e respeito que se tem por um legado.

Introdução

Na imensidão das memórias que tecem a rica tapeçaria danossa família, algumas histórias se destacam pela sua vivacidade e seu impacto.Esta coletânea de relatos é um testemunho da profunda ligação que une cadamembro da família Pereira e Viana dos Santos. As narrativas aqui reunidas nãosão apenas lembranças do passado, mas também manifestações do espírito vibrantee da resiliência que definem a nossa herança familiar.

Cada história é um fragmento de um tempo em que asimplicidade da vida cotidiana era entrelaçada com momentos de alegria,desafios e conquistas. Desde as tardes ensolaradas na Fazenda Estanque até asaventuras memoráveis em lugares como os Coelhos, O Cuba, Panelas, Pindobal, RioVermelho, dentre outras localidades do município de Catu, estas memóriascapturam a essência da nossa infância e juventude. As tardes de brincadeiras,as viagens improvisadas, e as reuniões em torno da fogueira são mais do queapenas recordações; são pilares da nossa identidade familiar.

Através das palavras de Tia Zinha, Tia Diva, Tia Noi, TioLui, Tio Viana, Tio Vadú, Tia Tany, Tio Baio e Dorinha os mais antigos,acrescentando também os outros membros da família, você será transportado paraum passado em que cada riso, cada lágrima, e cada experiência formaram a basedaquilo que somos hoje. Estas histórias são um legado, um presente precioso queMaria Elis, a jovem curiosa que inspirou este livro, ajudou a trazer à luz. Aorevisitar estes momentos, somos lembrados não apenas das nossas raízes, mastambém do valor inestimável da nossa história compartilhada.

Esperamos que, ao ler estas páginas, você sinta a mesmaconexão e alegria que nós experimentamos ao reviver estas memórias. Que estashistórias não só preservem o passado, mas também inspirem as futuras gerações avalorizar e celebrar a riqueza de nossa herança familiar.

O Estanque: Poeira,Fé e Carro de Boi

"As lembranças da roça não se apagam — apenas descansamsob a poeira da estrada."

O Estanque, pequeno distrito rural da cidade de Catu, naBahia, era um lugar onde o tempo parecia andar descalço. A estrada de barro erao coração da comunidade — vermelha, poeirenta e viva. Quando o sol batia forte,a poeira subia feito neblina de sertão, cobria tudo com aquele tom alaranjadoque até hoje mora na memória.

A estrutura do povoado era simples, mas cheia de vida. Haviaum posto de saúde que funcionava quando o médico lembrava-se de aparecer, umprédio escolar que também servia de casa para a professora, uma igreja que sótinha missa uma vez por mês e, ao redor, a venda de seu Vadinho — ponto deencontro, fofoca e risada. Perto dali, uma casa velha guardava o carro de boi,e um pequeno campo de futebol era o orgulho dos homens do lugar (porque,naquele tempo, mulher no futebol era coisa de outro mundo).

As casas da família se espalhavam pela estrada. A de TiaJoana, irmã do meu avô, ficava logo antes da matriarca da família, a lendáriaIaiá — Maria de Santa, a pessoa mais velha e respeitada da região. Diziam que elasabia de tudo e de todos, e que bastava um olhar para colocar qualquer um noeixo.

Os fazendeiros da redondeza formavam uma espécie de “nobrezarural”. Tinha seu Breu, dono de um sítio antes da ponte; Dona Zeca, tia do meuavô, mulher misteriosa e respeitada; Maurício Ramos, que morava mais distante;e Evandro Gabriel, que vivia com a mãe, dona Maria Gabriel, e as irmãs Laurindae Dona D’luz. Cada um com seu pedaço de terra, suas histórias e suas manias.

A igreja era o centro espiritual e social do Estanque. Quemcuidava dela era Zefina, filha de seu Breu, mulher de fé e pulso firme. No diada missa, o povo vinha de todos os cantos — Bolandeira, Rio Vermelho, do Coelhoe até do Cuba, lá de Alagoinha. Era um verdadeiro acontecimento. DonaVeneranda, doceira de mão cheia, aproveitava para vender suas guloseimas. Todomundo guardava o suado dinheirinho para comprar um pedaço de bolo ou um doce deleite. Enquanto isso, os homens se reuniam na venda para jogar dominó e tomaruma gasosa de limão — o sabor da infância engarrafado em lembrança.

A escola era comandada por Dona Mira, professora e moradorado prédio escolar. Mulher de poucos sorrisos, mas de muita paciência,alfabetizou gerações inteiras. Eu mesma aparecia por lá de vez em quando, maisinteressada no mingau da merenda do que nas lições. Dona Mira fazia tudo:ensinava, corrigia, cozinhava e ainda servia o lanche. Ser professora naquelaépoca era missão de fé — e hoje, olhando pra trás, dá pra rir e pensar: “erapuxado, viu?” (sem o ponto final aqui, a interrogação é suficiente)

O posto médico funcionava em dias marcados, e asespecialidades eram sempre as mesmas: o clínico, que aplicava injeção paraqualquer dor, e o dentista, que arrancava dentes e distribuía dentaduras —principalmente em época de eleição.

Mas o meu lugar preferido era o carro de boi. Sentar em cimadele me fazia sentir uma verdadeira boiadeira, gritando com os bois e batendocom a vara, toda importante. O dono do carro era tio Gregório, irmão do meu avô— homem negro, alto, de olhos amarelos e coração doce. Corria léguas só pra mecolocar no carro e me levar junto. Até hoje, se fecho os olhos, ainda ouço osom do carro de boi: ruuuuuuuruuuuu... — o som mais bonito da minha infância.

Fechamento

O Estanque não era apenas um lugar no mapa, mas um retratovivo de simplicidade, fé e afeto. Cada poeira levantada na estrada, cada missa,cada risada na venda e cada rangido do carro de boi formam o tecido dasmemórias que ainda sopram no vento. É ali, entre o barulho dos bois e o cheirode terra molhada, que o coração da família continua batendo — firme teimoso echeio de saudade.

Lembranças deMacedônio e Pedrinha

"Há amores que otempo não apaga — apenas transformam em saudade boa."

As lembranças começam muito cedo, como se o coraçãoguardasse cheiros, vozes e gestos antes mesmo de entender o que é o tempo. Acasa dos meus avós, Macedônio e Pedrinha, foi o primeiro abrigo depois do colode minha mãe. Fui para lá ainda bebê, fugindo dos problemas da cidade grande —fome, desemprego e doenças — e encontrei, no recôncavo, o aconchego que só oamor simples sabe oferecer.

Minha avó Pedrinha sempre vinha nos buscar, a mim e à minhairmã Mari Ane, a quem todos chamavam de Xininha (forma carinhosa que chamamos aminha irmã). Era uma sertaneja raiz, mulher de fibra e de palavra firme, destasque enfrentam o mundo com o olhar e o avental. Meus avós eram o meu portoseguro, o chão firme da infância. Como primeira neta, vivi colada a eles — edeles herdei o jeito de ver a vida com coragem e ternura.

Lembro-me das idas para o interior, como chamávamos a viagematé a Fazenda Estanque. Pedrinha seguia à frente, equilibrando uma bacia nacabeça, e nós atrás, atravessando o Subaco da Raposa²  — hoje o bairro do Bom Viver — e caminhandooito léguas de poeira e sol. Comecei a frequentar a casa velha (a casa dabaixa, na Boca da Mata) aos dois meses de idade, quando meu pai precisou fazeruma cirurgia e minha avó foi me buscar para “descansar mainha”, como ela dizia.Durante vários anos fizemos essa viagem cheia de muitos desafios e muitocansaço. Quando a minha Mari Ane nasceu também participava dessa via crucis queera chegar até a casa de meus avós na roça. Aconteciam graves problemas naquelefim de mundo, sem as necessidades básicas disponibilizadas pelo poder público,em que o transporte era um desses problemas, só existia um pau de arara(caminhão aberto) para transportar as pessoas, os animais, sacos de farinhas efarelos até a localidade que os meus avós moravam, e essas nossas viagens emdias que não tinha transporte, eram feitas a pé, mesmo para uma criança como eue a minha irmã Xininha, que preguiçosa e doentinha só ia carregada nas costasde minha vó, enquanto eu, pequena e teimosa, insistia em andar. Às vezes, algumvizinho que voltava da feira me colocava dentro do caçuá³ ou das malas decouro, e lá ia eu, balançando entre risadas e cochilos.

Cada neto que nascia ganhava um pé de jaca plantado por meuavô. Dizia ele que era o que podia deixar de herança, pois riqueza mesmo era oamor que se plantava. Um homem simples, mas sábio. Minha primeira aula defísica foi com ele, no mato, enquanto cortava lenha. Ensinou-me que, antes dederrubar um pé de pau, era preciso calcular onde ele cairia. E não é que otronco caiu exatamente onde ele disse? Aquele homem, que mal conhecia as letrasdo alfabeto e assinava o nome com esforço, era um autodidata da vida.

Minha avó contava que o pai dela não deixava as filhasaprenderem a ler, “pra não ficarem escrevendo carta pra namorado”. Mas Pedrinhatinha sede de saber. Gostava de ouvir as palavras ganhar forma, e seus olhosbrilhavam quando líamos para ela as cartas que a minha mãe enviava de quinze emquinze dias. Era como se cada linha trouxesse um pedacinho da cidade, um soprode saudade.

Fechamento

O tempo levou o corpo, mas deixou a presença. Macedônio ePedrinha continuam vivos em cada lembrança, em cada jaca madura, em cada risadaque ecoa nas histórias contadas à beira do fogão. A saudade deles não dói — elaaquece. É a prova de que o amor, quando é verdadeiro, não se perde: apenas mudade lugar e passa a morar dentro da gente.

O Mistério do Pé daSucupira

"As árvoresguardam segredos que só o tempo revela."

Ninguém na Fazenda Estanque esquece o dia em que o velho péde sucupira decidiu nos pregar uma peça. Aquele tronco grosso e retorcido, quesempre serviu de abrigo para as conversas, às sombras e até as brincadeiras deinfância, amanheceu diferente. Dizem que a natureza fala, mas naquele dia elagritou. O chão ao redor estava mexido, como se alguém tivesse cavado algumacoisa durante a madrugada.

Seu Macedônio, curioso como sempre, foi o primeiro a chegarperto, acompanhado de Petronilha, que, desconfiada, fazia o sinal da cruz eresmungava: “Homem, deixa o que está quieto!”(sem o ponto aqui) Mas o velho nãodeu ouvido. Levou uma enxadinha, deu umas três cavadas e parou de repente, como rosto branco. Dentro do buraco, uma caixa de madeira envolta em pano velho.Quando abriu, o susto foi geral: um rosário antigo, um pedaço de papel comorações escritas à mão e uma medalhinha de São Bento.

Petronilha fez o sinal da cruz e mandou enterrar tudo denovo, rezou em voz alta. “Quem enterrou sabia o que fazia”, ela disse, e todomundo concordou. O mistério ficou no ar, e o pé da sucupira nunca mais foi omesmo.

Com o passar dos anos, aquele canto virou lugar de respeito.As crianças eram proibidas de brincar ali, e até os passarinhos pareciam pousarcom cuidado. Quando chovia, o vento batia nas folhas e fazia um som quelembrava reza. Dizem que era o espírito de quem deixou o rosário pedindo paraser lembrado.

Mas o tempo, com a sua mania de levar o que é vivo e deixaro que é lembrança, foi transformando o medo em saudade. O velho pé de sucupiracontinuou lá, firme, mesmo quando o resto da fazenda começou a mudar. As cercasnovas, o curral reformado, o campo de capim mais verde — tudo pareciadiferente, menos ele. Era como se guardasse, nas raízes, o segredo de todosnós.

Os mais velhos diziam que, nas noites de lua cheia, dava praouvir um sussurro vindo das folhas, um murmúrio leve, quase uma prece. Algunsjuravam ver uma luzinha azul dançando ao redor do tronco, como se o rosárioenterrado ainda brilhasse lá embaixo. E, mesmo quem não acreditava emassombração, evitava passar por ali depois do pôr do sol.

Cresci ouvindo essas histórias, e cada vez que voltava àFazenda Estanque, o pé da sucupira me esperava, silencioso, como um velhoguardião. Já não tinha a mesma força de antes, mas a lembrança dele continuavafirme em cada um de nós. Foi ali, entre o medo e a curiosidade, que aprendi queas memórias também se plantam — e algumas florescem no silêncio.

Infelizmente, o velho pé de Sucupira já não existe mais. Foiderrubado por mãos que talvez não soubesse o quanto ele significava. Ali, sobsua sombra generosa, tantas histórias nasceram, tantas risadas ecoaram, tantossilêncios guardaram segredos do tempo.

Hoje, resta a lembrança — viva e forte — daquele tronco quetestemunhou gerações inteiras. O pé de Sucupira pode ter sido cortado, mas assuas raízes permanecem firmes na memória de quem viveu à sua sombra, comosímbolo de resistência, afeto e pertencimento.

Fechamento

 

O mistério do pé da Sucupira não é apenas uma lembrança deinfância, mas um símbolo das raízes e dos segredos que unem nossa família. Cadafolha caída é uma história, cada galho torto um rastro da memória viva quepermanece entre nós. E quando o vento sopra entre as folhas, é como se o temposussurrasse de volta: há coisas que não se explicam — apenas se sentem.

Lembranças da Casa deFarinha

"Há lembrançasque o tempo não apaga — apenas adoçam com o sabor da saudade."

Segundo Meire Ane a terceira neta de Macedônio e Petronilha,as lembranças que guarda é de quando ela tinha uns oito anos. É impossívelfalar da minha infância sem lembrar-se de Macedônio e Petronilha.

Ele, um homem trabalhador, de mãos firmes e coração doce,que tinha imenso prazer em ver os netos ao redor. Ela, uma mulher forte, deatitudes firmes, mas de um carinho que aquecia até os dias mais frios. Pedrinhaera dessas mulheres que sabiam ser duras quando precisavam, mas que, no fundo,tinham o coração feito de ternura.

Com meus sete ou oito anos, lembro bem das manhãs em quemeus avós saíam cedo para a casa de farinha ou para a roça. Ficávamos sob oscuidados de tia Tânia e Meire, as mais velhas, que assumiam a responsabilidadecom um ar de seriedade misturado à doçura. Antes de sair, Pedrinha deixava tudopronto: a merenda separada, o almoço coberto com um pano de prato e asrecomendações repetidas — “só comer na hora certa!” (sem ponto final aqui porcausa da exclamação)

Mas o problema era justamente esse: nós não tínhamosrelógio. Então, inventamos nosso próprio jeito de medir o tempo. Ficávamos noterreiro, observando as idas e vindas de Diu e Jô, os filhos de Dona Laurinda,que passavam com as cargas de mandioca equilibradas nos jegues, indo e voltandoda casa de farinha. Cada viagem era uma contagem, e quando já tinham passadovárias vezes, sabíamos que o meio-dia estava chegando. Era o nosso relógio deinfância, feito de poeira, risadas e curiosidade.

Mais tarde,quando crescemos um pouco, começamos a frequentar a casa de farinha. Era ummundo à parte — o cheiro da mandioca ralada, o barulho do pilão, o calor doforno e as conversas que se misturavam com o vapor da massa. Meus avós tinham omaior orgulho de nos ver ali, com pequenos pedaços de faca nas mãos, lavrando amandioca com cuidado. Seu Evandro, o dono da casa de farinha, observava edizia, rindo: “Essas meninas da cidade têm mais habilidade que muito cabradaqui!” (encerrar com apenas uma pontuação)A gente se sentia importante, partede algo maior. Era como se, naquele trabalho simples, estivéssemos ajudando amanter viva uma tradição da família. E, no fundo, era isso mesmo.

 

Lembrotambém das tardes em que o sol começava a cair e o cheiro da farinha torrada seespalhava pelo ar. Macedônio, com o chapéu de palha na cabeça, ficava sentadoem um toco de madeira, observava tudo com aquele olhar sereno. Às vezes, elechamava um de nós, passava a mão na cabeça e dizia: “É assim que se aprende,minha filha. O trabalho ensina mais que qualquer livro.” (somente um ponto Eera verdade. Aprendemos ali o valor da paciência, da união e da simplicidade.

 

Nessemomento, Xininha entrou na conversa e, com o riso preso na garganta, perguntou:

 

— Ane, vocêlembra qual era a resposta de Diu e Jô quando passavam com as mandiocas pracasa de farinha, e a gente perguntava se já era meio-dia?

 

Ah, comoesquecer! Eles respondiam, zombando:

 

— Já passoudo meio-dia, menina! O sol já tá comendo sombra!

 

E a gente,acreditava, corria para dentro para comer antes da hora, rindo e se lambuzandocom a merenda.

 

Hoje, quandofecho os olhos, ainda vejo a fumaça saindo do forno, o barulho das risadas, ocheiro da farinha quente e o sorriso de Pedrinha, orgulhosa, vendo a famíliareunida.

 

Fechamento

 

O tempopassou, mas a lembrança da casa de farinha continua viva, como o cheiro quefica nas roupas depois de um dia inteiro de trabalho. Macedônio e Pedrinhadeixaram mais que histórias — deixaram raízes. E cada lembrança, cada risada,cada pedaço de mandioca lavrado é uma forma de dizer que eles ainda estão aqui,entre nós, no calor da saudade e na doçura das memórias que o tempo não leva.

 

A História da Gameleira

"Entre o medo e a fé, o sertanejoencontra força nas bênçãos que o protegem."

 

Esta é umadas histórias mais antigas e misteriosas da nossa família, contada com emoção erespeito por Tia Diva que viveu e ouviu de perto os caminhos da fé e dodestino.

 

Era umaépoca em que as estradas eram de barro e o silêncio da noite só era quebradopelo som dos grilos e do vento nas árvores. Pai Macedônio, homem de coragem edevoção, gostava de frequentar os terreiros de candomblé — lugares de reza,canto e respeito aos santos e encantados. Naquele dia, ele se preparava para irao terreiro de Bebé, um dos mais conhecidos da região. Colocou o chapéu nacabeça, a faca na cintura e seguiu estrada afora, já um pouco atrasado para acerimônia.

 

No meio docaminho, lembrou-se de Nossa Senhora e começou a rezar baixinho: “NossaSenhora, Nossa Senhora, me acompanha nessa jornada.” A estrada era longa e, nomeio dela, havia uma grande gameleira — árvore antiga, de tronco largo e raízesque pareciam abraçar a terra. Os mais velhos diziam que ali moravam espíritosantigos, guardiões do caminho.

 

O velho Macêseguiu firme, mas quando se aproximou da árvore, algo estranho aconteceu. Ovento parou, o ar ficou pesado e o silêncio tomou conta do lugar. De repente,sentiu o couro do chapéu apertar a cabeça, e o cabelo começou a crescer dentrodele, como se tivesse vida própria. Assustado, ele tentou tirar o chapéu, mas acorda que o prendia ao pescoço se enroscou. Foi então que, do nada, um bodepreto surgiu, pulando na frente dele.

 

“Valei-me,Nossa Senhora!”, gritou, puxando a faca da cintura e golpeando o ar. O bodedesapareceu como fumaça, e o vento voltou a soprar. Tremendo, ele atravessou opé da gameleira, rezando sem parar. Quando finalmente se afastou, o chapéu sesoltou sozinho, e ele o segurou debaixo do braço, ainda chamando por NossaSenhora.

 

Ao chegar aoterreiro, já tarde da noite, o ambiente estava tomado por cânticos e tambores.Uma das mulheres incorporadas por um espírito levantou a cabeça e disse: “Elechegou. Quem faltava, chegou.” Todos se entreolharam, e o pai de santo, o donodo Bebé, pediu que ele se aproximasse.

 

Sentado nobanco, ainda pálido, ele foi questionado sobre o motivo do atraso. Antes quepudesse responder, o espírito que estava na mulher falou com voz firme: “Eledemorou, e por isso o caminho se abriu. O que ele viu foi o aviso. NossaSenhora caminhou à frente dele.”

 

O terreirointeiro silenciou. O pai de santo pegou o cipó de caboclo, colocou diante delee disse: “Maior é Deus, e quem anda com fé não anda só.” O velho Macê,emocionado, respondeu com a oração que sempre carregava no coração:

 

“Maior éDeus e Senhor Santo Antônio, Santo Antônio Pequenino, Machador dos MorrosBrabos, anda comigo abaixo de Deus, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.”.

 

No mesmoinstante, a mulher incorporada caiu para trás, e o terreiro inteiro bateupalmas. Os tambores — ou como se dizia na época, o “tambor” — começou a tocarmais forte, e o canto ecoou pela noite. O pai de santo mandou parar a música e,olhando firme para ele, disse:

 

- A partirde hoje, sei que você não anda sozinho. Nunca mais isso vai acontecer, porquehá quem te guie. Quando Deus tem um plano, não se atrasa no caminho.

 

Pai tirou ochapéu, deu a bênção a todos e agradeceu. Rezou a Santo Antônio, ao Senhor doBonfim e à Nossa Senhora das Candeias, de quem era devoto. Ficou na festa até oamanhecer, em paz, e voltou para casa são e salvo, com o coração leve e acerteza de que a fé o havia protegido.

 

Fechamento

 

Esta é umadas histórias verdadeiras da nossa família, passada de geração em geração,entre o medo e a devoção. A gameleira continua lá, firme, testemunha silenciosade um encontro entre o sagrado e o mistério. E cada vez que o vento sopra entresuas folhas, parece repetir as palavras do pai de santo: “Quem anda com fé,nunca anda só.

 

A Viagem de Pedrinha

"A coragem das mulheres do sertão éfeita de fé, passos firmes e amor pela família."

 

Eramadrugada ainda quando Pedrinha decidiu enfrentar o caminho até a estação detrem de Catu. Tudo começou quando Tia Nina, que morava em Salvador, mandou umacarta aflita dizendo que, se Pedrinha não chegasse dentro de oito dias, elamesma iria procurá-la. A notícia deixou Gracinha, a filha, agoniada — como todamãe que sente o peso da preocupação — e logo tratou de organizar a viagem.

 

Naqueletempo, o trem era o único meio de transporte que ligava o interior à capital.Tinha hora certa pra passar, e quem perdesse o horário só via o próximo nooutro dia. Pedrinha, mulher decidida e de fé, arrumou tudo o que precisavalevar dentro de meio saco de farinha — roupas, mantimentos e lembranças para airmã. Ajeitou a bagagem com cuidado, amarrou o pano na cabeça e deixou tudopronto para a jornada.

 

Na roça, otempo era medido pelo cantar dos galos e pelo brilho das estrelas. Sem relógio,ela sabia que precisava sair às quatro da manhã. Quando o primeiro galo cantou,tomou um “banho de gato”, vestiu a saia e a blusa de algodão, fez o sinal dacruz e se entregou a Deus. Com o canivetinho no bolso e o saco de farinhaequilibrado na cabeça, saiu de casa no escuro da madrugada, guiada apenas pelaluz da lua.

 

O caminhoera longo e solitário. Cortou pela mata que levava à Lagoa Escura, onde o ventosoprava forte e o silêncio fazia o coração bater mais rápido. Andava apressada,rezando baixinho, pedindo proteção a Nossa Senhora e aos santos de sua devoção.

 

De repente,ao chegar no alto do vento, ouviu vozes distantes. Pareciam cânticos, oraçõesmisturadas com gritos. “Ora por ele! Ora por ele!”, diziam. O som vinha evoltava com o vento, e quanto mais ela parava, mais alto o coro ficava. Ocabelo arrepiou, o corpo gelou. Pedrinha fechou os olhos e chamou por Deus, porNossa Senhora e por Santo Antônio. Sentiu o coração apertar, atravessou ocanivete na boca — como quem sela a fé — e seguiu firme, sem olhar para trás.

 

Quando o diacomeçou a clarear, já estava chegando em Catu. As pernas doíam, os pés estavamferidos, mas o coração seguia forte. Ao chegar à estação, encontrou apenas umsenhor, provavelmente o vigia, que se assustou ao ver uma mulher sozinha,carregando tanta coisa nas costas. Ela sorriu cansada, encostou o saco defarinha no banco e esperou o trem, tirou um cochilo leve enquanto o sol nascia.

 

O tremchegou por volta das cinco da manhã. Pedrinha embarcou, ajeitou a bagagem eseguiu viagem até Salvador. Quando finalmente chegou à casa de Tia Nina, oalívio foi geral. A irmã estava viva, e o perigo que a carta anunciava nãopassou de um susto.

 

Pedrinhachorou, riu e agradeceu a Deus. Contou o que viveu na estrada, o vento, asvozes, o medo e a fé que a guiou. Disse que só chegou porque Nossa Senhoracaminhou à frente dela.

 

Fechamento

 

Esta é umadas histórias de Pedrinha — mulher de coragem, fé e coração imenso. Caminhousozinha pela mata escura, confiando apenas na luz das estrelas e na proteçãodivina. Hoje, sua travessia é lembrada com saudade e admiração, como símbolo daforça das mulheres do interior, que enfrentavam o mundo com um rosário na mão ea esperança no peito.

 

O Caso de Antenor (nome fictício)

"O tempo passa, mas certas históriasficam guardadas na memória como se tivessem acontecido ontem."

 

Taninhalembrava bem daquele dia. Já fazia mais de sete anos que Nonô tinha sumido dopovoado, sem deixar rastro. Ninguém sabia se estava vivo, se tinha ido emborade vez ou se o destino o tinha levado para longe. Até que, em um domingo desol, durante a missa no Estanque, ele reapareceu — como quem volta do nada,trazendo o passado debaixo do chapéu.

 

A igrejaestava cheia, o povo rezando, e lá fora o vento soprava leve. Quando a missaterminou, Nonô apareceu montado em um cavalo, devagarinho, com aquele jeitomanso de quem quer se aproximar sem assustar. Cumprimentou Pedrinha e Macedôniocom respeito, trocou umas palavras, e logo puxou conversa.

 

— Essa éTaninha? — perguntou, olhando curioso.

 

— É sim —respondeu Pedrinha, orgulhosa. — Já tá uma mocinha.

 

Ele sorriu,ajeitou o chapéu e foi acompanhando o casal até a porteira. O pai andavadevagar, e Nonô, sempre ao lado, proseava como quem não tinha pressa. Quandochegaram perto da estrada, encontraram mais gente voltando da missa, e foi ali,entre risadas e conversa que ele se virou para Pedrinha e, sem rodeios, pediuTaninha em namoro.

 

Pedrinha,sem pensar muito, aceitou o pedido — talvez por costume, talvez por simpatia.Mas Taninha, menina de treze anos, ficou indignada.

 

— Eu nãoquero namorar com ninguém! — disse, brava, quando chegaram em casa. — Aindamais com um homem velho, vivido, que nem sei de onde veio!

 

Erarespondona, atrevida e de língua afiada. Hoje, lembrando, ri de si mesma, masna época falou o que sentia, sem medo. Macedônio, homem justo ouviu tudocalado, pensativo. Depois de um tempo, entendeu que a filha tinha razão. Nonôera um homem feito, com histórias demais e intenções duvidosas.

 

Mesmo assim,ele apareceu mais duas vezes na casa deles, aos domingos, tentando ajustar onamoro. Taninha não deu conversa. Ficava de cara fechada, respondia commonossílabos, até que ele desistiu de vez.

 

Os anos passaram.Taninha cresceu, foi morar em Salvador com Bia e Antônio, e a história de Nonôficou guardada como lembrança de um tempo distante. Até que um dia, em umaconversa com o velho Tião - o cunhado - o passado voltou à tona.

 

Tião contouque trabalhava no Polo Petroquímico de Camaçari e que lá conhecia um homemchamado Salvador, irmão de Nonô. Conversando sobre o pessoal do interior,Salvador comentou:

 

— Meu irmãonamorou uma filha de Macedônio, lá dos Tanques.

 

Tião,curioso, perguntou:

 

— Qualdelas?

 

— Umachamada Maruzinha — respondeu o homem.

 

E foi aí quea verdade veio à tona. Salvador contou que Nonô era conhecido por ser um homemsem juízo, que não respeitava as moças, que tinha filhos espalhados e nãoassumia nenhum. Um “furador”, como disse Marquito, rindo da lembrança.

 

— Nos temposde hoje — o completou — chamariam de furador lascado!

 

Nadinho, queouvia a conversa, ainda acrescentou:

 

— E não éque ele andou perguntando por Tia Zinha? Queria saber se ela tinha casado!

 

Ane, comaquele jeito brincalhão, respondeu:

 

— Tá vivoainda, Nadinho? Pois é o rufiando da família! (cabe um enter aqui)

 

E todoscaíram na risada, misturando espanto e humor, como quem revive uma históriaantiga que o tempo não conseguiu apagar.

 

Fechamento

 

O caso deNonô virou lenda entre as conversas de família. Um episódio que começou com umpedido de namoro e terminou como lembrança de um tempo em que a inocência e aesperteza andavam lado a lado. Hoje, quando o nome dele é lembrado, vem junto oriso, o espanto e a certeza de que, no sertão, até as histórias de amor têm umquê de mistério e de lição.

 

As Histórias de Tia Zinha e Ane

"O sangue puxa, o gênio repete, e ashistórias se misturam como as vozes de um mesmo tempo."

 

As históriasde Tia Zinha e de sua sobrinha Ane se entrelaçam como fios de uma mesma trama.Uma nasceu no tempo das festas de terreiro e dos bailes de sanfona; a outra, notempo das risadas em grupo e das lembranças contadas em voz alta. Mas oespírito das duas é o mesmo: alegre, atrevido e cheio de vida.

 

Zinha, aMocinha Arretada (sem ponto e um enter)

 

Xininhasempre dizia que Zinha, quando era moça, era danada. Cozinhava bem, se arrumavatoda e tinha um jeito de se sentir dona do mundo. Era arretada, virada nosseiscentos, e quando o assunto era homem, misericórdia! Nenhum escapava do seucharme.

 

Certa vez,em um aniversário de minha madrinha no São Pedro, o terreiro estava cheio degente. Chegou Nonô, trouxe um balaio de coco e outro de laranja, com a cabeçacheia de brilhantina e o cabelo penteado com tanto capricho que brilhava naluz. Zinha, toda arrumada, com a frente do cabelo presa e o resto solto,parecia Maria Bonita.

 

Não demoroumuito e começaram a chegar outros pretendentes. Um trouxe mais cocos, outroarriou um balaio de jenipapo, e o meu padrinho Macedônio, de longe, já inchavade raiva. O povo cochichava, os rapazes se encaravam, e o clima esquentou. Nofim, rolou uma briga daquelas — e foi aí que Xininha, rindo, sempre dizia:

 

— Agora seia quem Ane puxou!

 

O Namoro deZinha enter aqui)

 

Zinha tambémteve suas histórias de amor e desilusão. Quando moça, namorou Nonô — o mesmoClaudionor Santana que anos depois cruzaria o caminho de Taninha. Ele moravalonge, para a banda de Panelas, e vinha montado em um cavalo alazão, bonito egordo, com uma capa por cima.

 

O namorodurou um tempo, mas logo começaram as desconfianças. Zinha ouvia dizer que Nonôtinha um “cacho” com outra moça, e o coração dela, que era valente, nãoaceitava traição. Um dia, Ane — ainda menina — viu o tal cavalo passando demanhã cedo, vindo da roça de Dona Cota, e contou tudo à tia.

 

Zinha nãoquis acreditar, mas a dúvida ficou. Até que um dia, com os olhos marejados e oorgulho ferido, escreveu uma carta e terminou o namoro. “Quem não é fiel nocaminho, não merece companhia”, dizia ela.

 

Ane, aSobrinha Dada enter aqui)

 

Anos depois,Ane cresceu e herdou da tia o mesmo brilho e o mesmo jeito de ser. Marquitovivia dizendo:

 

— Quando eufalo que Tia Zinha pariu Ane e deu pra mainha Bia criar, ninguém acredita!

 

Ane ria erespondia:

 

— Eu e minhatia somos pessoas muito dadas, comunicativas, que sabem interagir com o povo.Isso é dom de família!

 

Xininha, queconhecia bem as duas, completava:

 

— Se fossepra escrever um livro sobre essa família, tinha que ter um capítulo só praelas. Duas terríveis!

 

E eraverdade. Ane tinha o mesmo fogo no olhar, a mesma língua afiada e o mesmo domde transformar qualquer situação em história boa para contar.

 

AsTravessuras de Família enter aqui)

 

Zinha,esperta que só o cão, namorava na sala enquanto seu Macedônio, o pai,resmungava no quarto. O velho soltava uns “avisos” barulhentos que faziam ascrianças correrem de medo, e os namorados, coitados, ficavam sem saber se riamou se iam embora.

Enquantoisso, Ane, anos depois, repetia o mesmo espírito brincalhão. Nas festas, era ocentro das atenções. Gostava de conversar, rir e provocar. Quando alguém diziaque ela era “dada demais”, ela respondia:

 

— Dada não,meu bem. Comunicativa!

 

E o povoria, porque sabia que era o mesmo sangue de Zinha correndo nas veias.

 

O Espelho doTempo enter aqui)

 

As históriasde Zinha e Ane se misturam tanto que às vezes ninguém sabe onde termina uma ecomeça a outra. As duas viveram intensamente, cada uma no seu tempo, mas com omesmo coração valente e o mesmo gosto pela vida.

 

Zinha foi àmocinha arretada dos bailes e dos namoros escondidos. Ane, a mulher alegre dasfestas e das conversas animadas. Uma abriu o caminho, a outra seguiu dançandopor ele.

 

Fechamento

 

O tempopassa, mas o sangue não mente. Zinha e Ane são duas versões de uma mesmahistória — a história das mulheres fortes, engraçadas e cheias de vida quefazem da família um retrato de coragem e alegria.

 

Entrerisadas, brigas e paixões, as duas continuam vivas nas lembranças, nasconversas e nas histórias que o tempo, por mais que tente, nunca vai apagar.

 

As Travessuras de Ane

"Entre risadas e lembranças, o tempoguarda as histórias que ninguém esquece."

 

As históriasde Ane sempre foram assunto nas rodas de conversa da família. Cada primo temuma lembrança diferente, mas todas têm o mesmo tom de alegria, confusão esaudade. Era impossível não rir quando alguém começava a contar um “causo” dela— e Bitola e Nadinho eram os primeiros a puxar o fio da memória.

 

O flagrantede Bitola enter aqui)

 

Bitolagostava de lembrar-se daquele dia como se tivesse acontecido ontem.

 

— Ô Ane,você tá lembrada daquele flagrante que eu dei em você, lá na porta do hotel? —dizia ele, rindo. — Quando você me viu, sua cara ficou igual à figurinha quemandei no grupo!

 

Ane, no augeda juventude, era pura energia. Bitola jurava que nunca esqueceu aqueleencontro.

 

— Eupreferia a Ane de hoje, mas a de antes também não se jogava fora, viu? —completava, com aquele jeito brincalhão.

 

O flagrantevirou lenda entre os primos. Ninguém sabia ao certo o que tinha acontecido, mastodo mundo ria só de ouvir a história.

 

A Festa de Pau Lavrado

 

Nadinho, porsua vez, sempre trazia à tona outro episódio: a famosa festa de Pau Lavrado.

 

— Rapaz,quando Ane chegava da cidade pra roça, era uma alegria só! — contava. — A gentetudo duro, sem um tostão, e ela animando o povo pra ir pra festa.

 

O primoIvan, que tinha um carro, era o responsável por levar a turma. A festa eralonge, mas ninguém se importava. Quando chegaram, o lugar já fervia de música erisadas.

 

Logo umcoroa se engraçou com Ane. O homem, elegante, fumava cigarro Carlton e falavamanso. Disse para o dono do bar:

 

— O queminha preta quiser, pode liberar.

 

Ane, com seujeito firme, respondeu:

 

— Eu nãotenho costume de beber com estranho, não.

 

O povo caiuna risada. Nadinho jurava que o homem ficou encantado.

 

— Onde nãotinha o que inventar, Ane inventava! — dizia ele. — Saiu pra se aliviar evoltou enxugando o suor do cabra com a mesma toalhinha! O homem ficou doido!enter aqui)

 

A históriaterminou em gargalhada, como sempre. O homem gritava, o povo dançava, e Ane,rindo, dizia que aquilo era “tempo bom, da desgrama”.

 

O Jeito de Ane

 

Ane semprefoi assim: espontânea, divertida e cheia de histórias para contar. Tinha o domde transformar qualquer situação em lembrança boa. Os primos diziam que ela era“bagaçada pura”, e ela mesma ria disso.

 

Entreflagrantes, festas e confusões, Ane deixa a sua marca. Cada lembrança é contadacom carinho, como se o tempo não tivesse passado.

 

Fechamento

 

Astravessuras de Ane são parte viva da memória da família. São histórias quemisturam inocência, alegria e o jeito leve de quem sabe viver. E quando alguémcomeça a contar, o riso vem fácil, porque Ane, com seu jeito único, continuapresente em cada lembrança, em cada piada e em cada saudade que o tempo insisteem guardar.

 

Tio Viana

"Algumas pessoas passam pela vidadeixando rastros de sabedoria e afeto que o tempo nunca apaga."

 

Xininhasempre diz que o ponto alto da infância era quando Tio Viana — ou Zevi, comoela o chamava — chegava. A lembrança vinha viva, como se o tempo não tivessepassado. Ele sempre aparecia à noite, assoviando um bom forró, o som ecoandopela estrada antes mesmo de se ver sua figura alta e elegante se aproximando.

 

Tio Vianaera diferente de todos. Homem culto, de fala mansa e olhar sereno, usava semprecamisas de manga comprida e calças de tecido leve, mesmo no calor do sertão.Nunca se via de bermuda ou camiseta. Tinha um jeito de quem carregava o mundodentro da cabeça e o coração cheio de histórias.

 

Quando elechegava, a casa de meus avós se transformava. As crianças corriam, os adultosse ajeitavam nas cadeiras de madeira, e os vizinhos logo apareciam atraídospelo som do assovio e pela promessa de uma boa prosa. Ele trazia sempre algopara cada um — um doce, um brinquedo simples, uma lembrança — mas o verdadeiropresente vinha dentro da maleta de couro que carregava com cuidado.

 

Era umamaleta mágica, cheia de livros de cordel. Quando ele a abria, o cheiro do papelmisturado ao da noite quente enchia o ar. Xininha, Meire e Ane se sentavam bemna frente, os olhos brilhando, esperavam o momento em que o tio começaria aler.

 

Foi com eleque aprendemos a ler. Cada verso rimado, cada história de valentia e esperteza,era uma lição disfarçada de encanto. Tio Viana acreditava que a literatura erao caminho mais bonito para ensinar o povo a pensar, a sonhar e a rir.

 

Os livros dePedro Malasartes eram os preferidos de Xininha. Ela ria das travessuras dopersonagem e se encantava com a esperteza dele. Mas o que mais a fazia sonhareram as histórias das princesas — aquelas que o tio lia com voz suave, como seo mundo parasse para ouvir.

 

As noitescom Tio Viana eram de festa e aprendizado. Ele lia, contava causos, recitavaversos e, entre uma história e outra, ensinava sobre a vida. Falava de coragem,de justiça, de amor e de fé. E quando o lampião começava a fraquejar, elefechava o livro, sorria e dizia:

 

— Agora,cada um leva um pedacinho dessa história no coração.

 

Hoje, aolembrar, Xininha se emociona. Entende que Tio Viana não trouxe apenas livros,mas também o gosto pela leitura, o valor da palavra e o poder da imaginação.Ele plantou em cada um o desejo de aprender e de contar histórias — e é poristo que, até hoje, o nome dele é lembrado com tanto carinho.

 

Fechamento

 

Tio Vianafoi mais que um tio; foi mestre, contador de histórias e guardião da memória dafamília. Sua maleta de cordel era um baú de sabedoria, e suas visitas, umpresente que o tempo não conseguiu apagar.

Entre versose risadas, ele ensinou que a vida é feita de histórias — e que quem aprende acontá-las nunca morre de verdade.

 

Ruan e a Fome

"Quem tem fome de comida, tem tambémfome de vida — e Ruan sempre teve das duas."

 

As históriasde Ruan são tantas que já viraram patrimônio da família. Cada primo tem umalembrança, cada tio tem uma versão, e todas terminam em risada. Marquito sempredizia que Ruan era o retrato da travessura e da teimosia, um menino que viviacom o estômago roncando e o coração cheio de vontade.

 

O Jantar de Tio Vadú

 

Uma dashistórias mais lembradas aconteceu em uma noite quente, quando Tio Vadu chegouda roça, cansado e com umas boas doses de cachaça no corpo. As crianças játinham jantado, e a casa cheirava a carne frita e farinha torrada.

 

Tio Vadú sesentou à mesa, ajeitou o chapéu e pediu o prato. Foi quando Ruan apareceu,devagarinho, e se sentou no pé da mesa, com aquele olhar de pidão que ninguémresistia.

 

— Mãe, essascrianças já comeram? — perguntou Tio Vadú.

 

— Já, meufilho — respondeu a avó, sem levantar os olhos da panela.

 

Mas Ruan nãose mexia. Ficavam ali, olhando o prato do tio, os olhos brilhando, a boca quasesalivando. Tio Vadú olhou de novo e perguntou:

 

— Hulk, meufilho, você tá com fome?

 

— Tô, meupadrinho — respondeu o menino, num fio de voz.

 

— Ô mãe,bota comida pra esse menino aí! — ordenou o tio, já meio impaciente.

 

A avósuspirou, mas preparou um prato caprichado, com arroz, feijão, carne e aindajogou por cima a graxa da frigideira, para dar gosto. Ruan se aproximou, pegoua colher e começou a comer.

 

— Tome umacolher, tome duas... — dizia Tio Vadú, animado.

 

Na terceira,Ruan começou a engasgar, fazendo careta e gesto de vômito.

 

— Agora vocêvai comer tudo ou eu enfio goela abaixo! — gritou o tio, batendo na mesa. — Vaicomer nem que seja pelo buraco do corpo!

 

Ruan,coitado, comeu. Comeu chorando, suando, tremendo, mas comeu. No fim, passoumal, mas ganhou o respeito da casa.

 

O Extintor de Mortadela

 

Outrahistória famosa foi no noivado de Nadinho, na casa de Dona Nete. A festa estavaanimada, e alguém teve a infeliz ideia de apostar quem comeria mais mortadela.Ruan, claro, topou na hora.

 

O povo sejuntou para ver. Ele começou devagar, depois acelerou, e quando deram por si, o“miserável”, como dizia Marquito, já tinha devorado quase um extintor inteirode mortadela. Ganhou a aposta, mas o preço veio logo depois: vomitou tudo,deixando o terreiro em alvoroço.

 

Mesmo assim,saiu vitorioso, com o povo gritando:

 

— É ocampeão da mortadela!

 

As Mangas deTia Joana enter aqui

 

Mas nenhumahistória supera a das mangas da casa de Tia Joana. Era uma mangueira enorme,que dava sombra e fruta o ano inteiro. Tiago e Ruan viviam por lá, catandomanga escondidos.

 

Um dia,subiram no pé e começaram a derrubar as frutas. Quando desceram, Ruan, com acara mais lavada do mundo, disse:

 

— Essasmangas são tudo minhas. - Tiago riu.

 

— Como é,rapaz? A gente pegou junto!

 

— Mas quemtava em cima do pé era eu — respondeu Ruan. — Então é tudo meu.

 

— Tá certo —disse Tiago. — Então leve sozinho. enter aqui

 

Ruan olhoupara o monte de mangas, sem saber o que fazer. Não cabia nas mãos, não tinhasaco. Tiago, rindo, deu a ideia:

 

— Bota acamisa por dentro e joga as mangas tudo aí dentro.

 

Ruan fez oque o primo mandou. Encheu a camisa até parecer uma barriga de grávida. Saiuandando, todo torto, as mangas pesando. Quando chegou perto da curva que davapara Lagoa, começou a gritar:

 

— Meu primo!Me ajuda, o leite da manga tá me queimando!

 

O sucoescorria pelo corpo, grudando na pele, e ele se desesperava. Largou tudo nochão, chorando. Tiago, esperto, voltou, pegou as mangas e levou para casa.Quando Ruan chegou, Tia Zinha perguntou:

 

— O que foique fizeram com meu filho?

 

E ele,soluçando, respondeu:

 

— Roubaramminhas mangas, mãe!

 

Fechamento

 

As históriasde Ruan são o retrato da infância no interior: cheias de fome, risadas econfusão. Ele era o menino que comia até passar mal, que brigava pelas mangas eque transformava qualquer situação em lembrança.

 

Hoje, quandoa família se reúne, basta alguém dizer “Ruan e a fome” para todo mundo cair narisada. Porque, no fundo, Ruan representa o que há de mais bonito nas memóriasda roça — a simplicidade, a travessura e o sabor das histórias que nuncaenvelhecem.

 

As Lembranças de Mãe Pêda

"Lembrar é regar o que o tempo insisteem fazer murchar."

 

Era fim detarde quando, sentadas no terreiro da casa de Tia Zinha, na Lagoa Escura, eu eminha prima Nanica começamos a conversar sobre o passado. O vento soprava leve,trazendo o cheiro da terra molhada e o som distante dos galos se recolhendo.Foi então que Nanica, com os olhos marejados de saudade, começou a falar de MãePêda — nossa avó, a matriarca que parecia ter nascido com o dom de cuidar e deensinar.

 

Quase toda afamília a chamava assim: Mãe Pêda. O nome soava como um abraço, uma mistura derespeito e carinho. Segundo Nanica, em uma festa de São João, Mãe Pêda costurouum vestido de quadrilha para Andreia, minha irmã e filha de leite de Mãe Pedâ.Quando vi o vestido, chorei de inveja e pedi um para mim. Mãe Pêda, com aquelecoração doce, me pegou no colo, enxugou as minhas lágrimas e prometeu fazeroutro igual. E fez. Era de chita colorida, cheio de fitas e babados. Quandovesti, me senti a menina mais bonita do mundo. Infelizmente sujei o vestidodurante a noite se São Joao e tinha que vesti-lo. No outro dia, mãe lavou evestido, mas não tinha como enxuga-lo, o tempo estava chuvoso, então teve aideia de colocá-lo próximo ao fogão de lenha para enxugar, com em um piscar deolhos o vestido caiu dentro do fogão e as chamas queimou todo o meu vestidinhoe só ficou o elástico na mão, nem gosto de pensar naquele momento que dávontade de chorar.

 

As Rezas de São Pedro

 

As rezas deSão Pedro na casa de Mãe Pêda eram um acontecimento. A casa se enchia de gente,o cheiro de milho assado e café coado tomavam conta do ar, e o terreiro viravaum pedaço de céu iluminado pela fogueira.

 

Meu tioAnestor era o mais animado. Uma semana antes da festa, a gente já se preparava:cortava palha pra fazer o caramanchão, buscava lenha no mato e ajudava a enfeitaro altar com flores e bandeirinhas coloridas. A fogueira era tão grande queparecia tocar o céu. Até hoje não sei de onde Tio Macedônio tirava tanta forçapara carregar aqueles tocos de madeira.

 

Lembro-me deuma noite em que eu, Dão e Andreia dormimos antes da reza começar. Quandoacordamos, o samba já comia solto no terreiro. O som do pandeiro e das palmasecoava pela roça. Decidimos descer para “baixa” — era assim que chamávamos acasa de Pedrinha e Macedônio, que ficava perto de um rego d’água. O breu eratanto que a gente só via o brilho das estrelas. De mãos dadas, fomos descendo,rindo e tropeçando, até chegar perto da fonte de Tia Chiquinha. O coração batiaforte, mas a vontade de ver a festa era maior que o medo, subiu em direção àcasa de mãe Maria de Santa, descemos atrás do pé da sucupira, passamos a pontedo rego e subimos a ladeira, quando riscamos no terreiro minha mãe gritou –eles vieram sozinhos? Todos ficaram assustados com a nossa coragem, o que nãopoderia acontecer era a gente perder a grande festa.

 

O Garrafão de Cachaça

 

Outralembrança viva é do meu avô Gregório. Homem simples, de fala mansa e sorrisofácil, guardava debaixo da mesa da sala um garrafão de cinco litros de cachaça.Era sagrado. Todo fim de tarde, ele tirava um copinho de café, enchia até ametade e dizia:

 

— Um golinhopra esquentar o juízo.

 

E dava umgole para cada neto. Foi assim que todos nós aprendemos a beber. Depois,ficávamos rindo à toa, sem entender direito o motivo. Minha mãe Lenice nuncadesconfiou. Era tempo bom da zorra, tempo de inocência e alegria.

 

As Noites de Lua Cheia

 

As noites delua cheia eram mágicas. A família se reunia no terreiro, o fogo do fogão delenha crepitava, e o cheiro de castanha assada se misturava ao da lenhaqueimando. Meu avô contava histórias de assombração, e a gente ouvia com ocoração na boca.

 

Foi em umadessas noites que Severina jurou ter visto um lobisomem no quintal. Tinha idoao mato — porque banheiro, naquele tempo, era luxo — e voltou correndo,gritando que o bicho estava lá. Depois descobrimos que era um casal denamorados escondido. O homem correu, e ela, assustada, jurou que era olobisomem. A casa virou um alvoroço. Minha Vó ria tanto que precisou se sentarpara não cair.

 

O Coração de Mãe Pêda

 

Mãe Pêda erao centro de tudo. Tinha mãos que curavam palavras que acalmavam e um olhar queparecia entender o que ninguém dizia. Sabia rezar para quebranto, benzer prador de cabeça e fazer remédio com folha e fé. Quando alguém chegava triste, eladizia:

 

— Senta meufilho. Come um pedaço de bolo e me conta o que foi.

 

E, de repente,o peso do mundo parecia mais leve.

 

Fechamento

 

Hoje, aolembrar-se de Mãe Pêda, o coração se aperta e se aquece ao mesmo tempo.Relembrar é como reacender o fogo do fogão de lenha: o calor volta, o cheiro dainfância invade a alma, e a saudade vira consolo.

 

Mãe Pêda foimais que avó — foi raiz, abrigo e escola. Em cada história, em cada reza, emcada gargalhada, ela deixou um pedaço de si. E é por isto que, mesmo com otempo passando, sua presença continua viva, sopra entre as lembranças como ovento manso na casa velha do Estanque.

 

Nossas Raízes e as lembranças de Daniela

"As lembranças da infância são raízesque o tempo não arranca."

 

Nossasraízes estão fincadas na terra vermelha do interior, no cheiro da lenha queimando,no som do galo cantando ao amanhecer e nas vozes dos nossos avós chamando paradentro de casa. É impossível falar da infância sem lembrar aquelas viagens praCatu, que começavam dias antes, com a ansiedade batendo forte no peito.

 

Quando minhamãe dizia que a gente ia viajar, o sono sumia. Eu passava a noite acordado,indo e voltando do quarto, perguntando se já estava na hora. A mala ficavapronta cedo, com as roupas dobradas e o cheiro de sabão em barra impregnado notecido.

 

Viajarnaquele ônibus verde da Camurujipe era a maior sensação do mundo. O barulho domotor, o vento batendo no rosto, o povo conversando alto, as galinhas embaixodos bancos e o cheiro de poeira misturado com o de café que alguém semprelevava em um bule de alumínio. Cada curva da estrada era uma emoção.

 

Chegar emCatu era outro capítulo de alegria. A gente descia do ônibus e ficava esperandoo caminhão de Ivan passar — o famoso pau de arara. Era ele quem levava o povopara roça, com os bancos de madeira e a lona por cima para proteger do sol.Quando o caminhão aparecia, meu pai sacudia a camisa, acenava para todo mundo egritava o nome dos conhecidos. O poeirão subia, o vento batia no rosto e ocoração batia mais forte.

 

O cheiro daestrada era inconfundível: poeira, capim seco e bosta de boi. E, por incrívelque pareça, era um cheiro bom, cheiro de vida, de lembrança, de casa.

 

Chegar àcasa da minha avó era o ponto alto da viagem. Lá estava ela, com os olhosbrilhando e o sorriso mais bonito do mundo. A mão dela, com o dedinhoinchadinho, me fazia lembrar de quantas vezes ela mexeu o tacho de doce, lavouroupa no rio e acendeu o fogão de lenha.

 

O cheiro dofogão tomava conta da casa — café fresco, bolo de puba, feijão no fogo e fumaçasubindo devagar pelo telhado. A gente corria para o quintal, via as galinhasciscando, o cachorro dormindo na sombra e o sol se pondo atrás das jaqueiras.

 

À noite, afamília se reunia no terreiro. As histórias começavam, as risadas ecoavam, e otempo parecia parar. O lampião iluminava os rostos, e o som dos grilos faziacompanhia. Era ali, naquele pedaço de chão, que a vida fazia sentido.

 

Fechamento

 

Hoje, quandofecho os olhos, ainda consigo sentir o balanço do ônibus, o cheiro da estrada eo calor do abraço da minha avó. Cada lembrança é uma semente que o tempoplantou no coração, e que floresce toda vez que a saudade aperta.

Catu não éapenas um lugar — é um sentimento. É o retrato da infância, o eco das vozes quejá se foram e o aconchego das mãos que ensinaram o valor da simplicidade.

Relembrar asnossas raízes é voltar pra casa, mesmo que só em pensamento. É sentir o cheirodo fogão de lenha, ouvir o riso dos nossos e entender que, por mais longe que avida leve, é ali — naquele chão de poeira e amor — que mora o que somos deverdade.

 

Chegamos aofim desta primeira parte da coletânea, onde cada lembrança se fez ponte entre opassado e o presente. As histórias aqui reunidas são fragmentos de um legadoque continua vivo, pulsando nas memórias e nos corações da família Pereira,Viana dos Santos.

 

Mas ahistória não termina aqui. Ainda há vozes que não foram ouvidas, lembranças queesperam serem contadas, emoções guardadas no silêncio do tempo. Que este livrodesperte em cada membro da família o desejo de partilhar suas própriasrecordações, para que os próximos capítulos sejam escritos a muitas mãos, com omesmo amor e verdade que nos trouxeram até aqui.

 

O temposegue, e com ele, a promessa de novas histórias — porque a memória da família éinfinita, e cada um de nós carrega uma parte dela.

 

Ana MeireViana – Autora





 

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