Fortaleza é um dos principais hubs de cabos submarinos de fibra óptica do planeta, especialmente concentrados na região da Praia do Futuro. Foto: Shut

Por que o Ceará se tornou um dos principais destinos para data centers das big techs?

O Ceará ganhou protagonismo no mapa dos data centers no Brasil. A Capital já abriga 11 empreendimentos do tipo, enquanto o Estado deve ampliar esse número nos próximos anos. Empresas globais planejam investir no Pecém, onde pelo menos nove projetos já foram aprovados, somando cerca de R$ 558 bilhões em aportes, segundo o Complexo Industrial e Portuário (CIPP).

 

Essa movimentação levanta o questionamento: por que o litoral cearense tem se destacado como destino estratégico para gigantes da tecnologia? Especialistas apontam uma combinação de fatores que vai da localização geográfica à infraestrutura instalada.

 

Entre eles, a conectividade internacional garantida pelos cabos submarinos que chegam à Praia do Futuro, reduzindo o tempo de transmissão de dados e oferecendo baixa latência, e a abundância de energia renovável, sobretudo diante da pressão por soluções mais sustentáveis em meio à crise climática, para um modelo de empreendimento que consome bastante energia.

 

Esse conjunto de vantagens transformou a costa cearense em um polo de atração para companhias como Angola Cables, Lumen e Scala Data Centers. No Pecém, essa ambiência chamou a atenção da Casa dos Ventos e de gigantes da tecnologia (big techs), como Google, Meta, TikTok e Netflix. 

 

Hub de cabos submarinos é fator decisivo

 

O principal motivo dessa concentração está na conectividade de Fortaleza com o restante do mundo. A capital abriga um dos maiores hubs de cabos submarinos de fibra óptica do planeta.

 

Quase 600 cabos submarinos de fibra óptica conectam diferentes continentes, formando a base física que sustenta o tráfego global da internet. É por essas estruturas que circulam, por exemplo, os conteúdos assistidos em plataformas de streaming, as imagens compartilhadas nas redes sociais e os dados armazenados em serviços de nuvem.

 

Até fevereiro de 2023, eram 18 cabos conectando o Brasil à América do Norte, Europa e África, e 16 deles estão instalados no Ceará, mais especificamente na Praia do Futuro, ponto por onde chega a maior parte dessas “rodovias” de informação ao território brasileiro.

 

Essa ambiência faz de Fortaleza uma das cidades com maior número de cabos submarinos ancorados no mundo. A explicação é essencialmente geográfica: Fortaleza está entre os centros urbanos brasileiros mais próximos simultaneamente da América do Norte, da Europa e da África, o que reduz distâncias físicas e facilita a instalação dessas redes.

 

Engenheiro elétrico e doutor em Ciência da Computação, o professor Júlio César Santos dos Anjos, que também possui pós-doutorados em Big Data e Edge Intelligence, explica que essa infraestrutura é decisiva para o setor. Segundo ele, a presença desses cabos na Praia do Futuro é o principal critério para a instalação dos data centers.

 

A proximidade com a estrutura principal e central por onde os dados da internet trafegam (backbone) da internet permite que empresas operem com a menor latência possível, o que significa mais agilidade no envio e recebimento de informações, como afirma o professor:

 

“Quanto menor for a latência, que é a diferença de tempo de transmissão de um dado em relação ao outro, melhor para o data center e a menor latência do Brasil é aqui, no Ceará”.

Essa vantagem se apoia em três pontos fundamentais: menor latência, alta capacidade de canal, comparada pelo professor a um “cano d’água enorme” para o tráfego de dados, e redundância de conexões, que garante segurança e estabilidade mesmo em caso de falhas.

 

Energia renovável impulsiona operação e reduz custos

 

A conectividade explica a localização dos data centers, mas a operação dessas estruturas depende de outro elemento estratégico: energia. O Ceará se beneficia de uma matriz majoritariamente renovável, o que reduz custos quando comparado a países que ainda dependem de fontes fósseis.

 

O professor Júlio César destaca também a importância da energia eólica produzida no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, cujo excedente atraiu projetos como o data center da Casa dos Ventos. Para empresas que consomem eletricidade em larga escala, essa oferta constante é determinante.

 

Outro diferencial local é o acesso ao litoral, que viabiliza sistemas de resfriamento mais econômicos, incluindo processos de dessalinização da água do mar. Como a refrigeração é um dos maiores custos desses empreendimentos, esse recurso ajuda a tornar Fortaleza ainda mais competitiva.

 

"Temos água salgada no mar e podemos fazer dessalinização para usar essa água também na refrigeração dos data centers. Isso diminui o custo operacional, porque o uso de energia para refrigerar os data centers está atrelado a isso".

Júlio César Santos

Doutor em Ciência da Computação

 

O Ceará está preparado para continuar crescendo no mercado de data centers?

 

De acordo com o engenheiro elétrico, apesar das vantagens, o crescimento do setor ainda enfrenta desafios. Um deles é a garantia de fornecimento de energia elétrica em larga escala a longo prazo, considerando o consumo elevado desses empreendimentos.

 

Outro ponto é o avanço regulatório: o Ministério das Comunicações discute a criação de políticas nacionais para data centers e cabos submarinos, além de regulamentações ligadas à inteligência artificial.

 

Nós enfrentamos um desafio energético muito grande, porque os data centers são grandes consumidores de energia. Com mais investimentos chegando à nossa região, a questão é: teremos energia suficiente para este tipo de infraestrutura ao longo do tempo? Talvez sim, talvez não, mas nós vamos ter que produzir mais.

Julio César Santos

Pós-doutor em Egde Intelligence

 

Data centers em Fortaleza

 

Conforme a plataforma Data Center Map, Fortaleza possui 11 data centers. São eles:

 

1 Ascenty

1 Angola Cables

2 Tecto Big Lobster

1 Hostweb Fortaleza

2 Scala 1

1 Ipxon

1 ProveNET

1 Ultranet

1 Lumem

 

*Estagiária sob supervisão da jornalista Bruna Damasceno.

 

(Diário do Nordeste, por Maria Clarice Sousa)

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