Cajazeiras, o Bradesco não fechará uma agência bancária, fechará as suas portas para o maior bairro de Salvador

Parece um post do Instagram o comunicado do Bradesco sobre o fechamento de sua agência, localizada em Cajazeiras, na Fazenda Grande II:

 

“PREZADO(A) CLIENTE, nosso ponto de encontro vai mudar!”

 

As mudanças, para empresas sólidas como o Bradesco, com milhões de clientes espalhados pelo Brasil, deveriam ser para melhor, para beneficiar tantas pessoas que acreditam na instituição e depositam a sua confiança no banco. Mas a diretoria do banco não consultou a população do bairro para debater sobre o que eles chamam de “reestruturação”, “modernização” que afetará milhares de clientes e causará tantos prejuízos aos que estavam há anos acostumados a fazer suas transações bancárias na agência do Bradesco.

 

Mais adiante na publicação, ao invés de trazer uma boa notícia para quem mora em Cajazeiras, segue dizendo em forma de imposição: A partir de 27/07/2026, você será atendido(a) pela agência Bradesco 2472 localizada no endereço: PORTO SEC.PIRAJA-USA, R. ALVARO GOMES DE CASTRO, 385.

 

Só que neste ‘você’ em negrito, estão os idosos, pessoas com deficiência, cidadãos e cidadãs que não têm como se locomover para Porto Seco Pirajá por várias razões. O local, para quem conhece, tem uma atmosfera totalmente diferente de Cajazeiras, um ambiente voltado para as empresas do entorno, não tem a acolhida que Cajazeiras tem, a mesma acolhida que o Bradesco recebeu durante anos pela população, que hoje são 11 mil clientes em um banco conhecido como o banco do povão, no sentido melhor da palavra.

 

A decisão da diretoria do Bradesco, ao consultar uma empresa americana, a consultoria McKinsey, que tem um escritório em São Paulo, preferiu levar em consideração os critérios dos “especialistas”, tecnocratas, que colocam o lucro em primeiro lugar e acreditam piamente na digitalização de tudo, não levam em consideração as necessidades do perfil de seus 11 mil clientes.

 

Imagino o saudoso e brilhante fundador do Bradesco, Amador Aguiar, se estivesse vivo, o que pensaria. Ele, um homem humilde que fundou o banco, como uma “instituição democrática e acessível, focada no varejo para atender lavradores, imigrantes e pequenos comerciantes que eram excluídos pelos grandes bancos da época”, certamente não concordaria com o que o seu Bradesco está fazendo com as camadas mais humildes do Brasil.

 

O comunicado fixado friamente na frente da agência ainda diz, “Você também pode contar com a rede de Correspondentes Bradesco Expresso, onde você pode contratar consignado, solicitar cartão de crédito, fazer um seguro, além de realizar pagamentos, saques, depósitos e muito mais”. Todos sabem das limitações dos correspondentes bancários, principalmente por conta dos limites diários de saques e tantas outras restrições.

 

Diante de um mundo capitalista em que o lucro e a digitalização forçada ditam as regras, a decisão do Bradesco deixa um rastro de desamparo em Salvador. Ao fechar as suas portas na Fazenda Grande II e transferir o atendimento para a distante e industrial região de Porto Seco Pirajá, a instituição financeira decreta, na prática, uma espécie de abandono bancário para cerca de 11 mil clientes.

 

São trabalhadores e trabalhadoras, aposentados e aposentadas, cidadãos e cidadãs de hábitos simples que, historicamente, viam na agência física de Cajazeiras um ponto de apoio e inclusão no coração do bairro de Cajazeiras.

 

Ao ignorar esta realidade em nome de uma modernização fria, o banco vira as costas à sua própria essência democrática, abandona milhares de pessoas que não dominam as ferramentas digitais ou que não têm condições de deslocamento, restando-lhes apenas o sentimento de exclusão e a triste certeza de que o “banco do povão” já não fala mais a língua do povo, ou pior, não quer mais saber do povo.

 

Todavia, este texto finaliza com um alento àqueles que fazem o Bradesco, que reflitam em sua decisão, que pensem na possibilidade de manter a agência de Cajazeiras, que dê esta alegria a uma população que quer tanto bem ao banco e precisa dele. O pedido é em nome dos ideais e da frase de seu fundador:

 

“O sucesso do Banco resulta de uma luta, a qual nunca abandonamos, para mostrar que o trabalho vale mais que o capital, e que o lucro é um bem quando aplicado conscientemente” Amador Aguiar – Fundador do Bradesco

 

(Cajaarte Notícias, Luis Antonio Gomes – Setor de Comunicação)

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